Há uns dias ouvia alguém dizer que a intimidade e a privacidade são conceitos quase extintos. Duvido vivamente que seja verdade. A dualidade entre ambas sempre foi, aliás, um dos principais motores do meu trabalho documental enquanto fotógrafa. Sempre me interessou a possibilidade de mostrar cenas profundamente íntimas e, ainda assim, não revelar absolutamente nada da vida privada ou pessoal.
Lembro-me de uma conversa com um professor, quando estava a tirar a licenciatura em fotografia, sobre a forma como as pessoas confundem intimidade com privacidade, nudez com exposição, ou como ver a pele nua de alguém pode criar a ilusão de que conhecemos essa pessoa. Lembro-me de ter debatido porque não me identificava com essa ideia. Foi provavelmente há mais de vinte anos e não só continuo sem me identificar, como ainda me lembro de como ele terminou a conversa: um momento verdadeiramente privado, para ele, seria lavar os dentes na presença de outra pessoa. Achei maravilhoso.
Talvez seja por isso que continuo tão interessada nesta distinção. Durante anos explorei-a atrás de uma câmara: quanto podemos mostrar sem realmente revelar? Quão perto podemos deixar alguém chegar sem lhe dar acesso àquilo que é mais nosso, que é privado?
Aquilo com que ainda não me tinha debatido, nestes últimos vinte anos, era com a possibilidade de estar online - no sentido de fazer o meu trabalho chegar a mais pessoas - me obrigar, eventualmente, a fazer exatamente o mesmo exercício comigo própria.
Há qualquer coisa no reconhecimento que me inquieta: a diferença entre a pessoa e a artista - que, inevitavelmente, tem de ser pública para que o trabalho chegue a mais pessoas.
A ideia de me apresentar online - e de perceber exatamente onde fica a linha entre intimidade e privacidade - interessa-me muito. Penso nisso, às vezes, quando o algoritmo insiste em fazer-me questionar se eu própria tenho mais alcance do que o meu trabalho.
Vivemos num momento em que temos uma quantidade extraordinária de acesso uns aos outros. Vemos fotografias de férias, casas, corpos, filhos, pequenos-almoços, crises, opiniões, separações, rotinas. Ouvimos pessoas que nunca conhecemos falar dos seus medos, mostrar os quartos onde dormem ou explicar aquilo em que acreditam.
E há qualquer coisa de estranho na facilidade com que esse acesso pode criar uma sensação de conhecimento.
Como se ver muito de alguém significasse necessariamente conhecê-lo - e vamos todos partir do princípio de que não significa.
Posso mostrar uma fotografia nua e não revelar absolutamente nada que considere privado. Posso escrever um texto profundamente pessoal e continuar a proteger quase toda a minha vida. Da mesma maneira, posso saber uma quantidade absurda de coisas sobre alguém online e não compreender minimamente quem essa pessoa é.
Mais alguém acha que começámos a confundir acesso com proximidade? Informação com conhecimento? Intimidade com privacidade?
E não sei se esta distinção é apenas semântica. Acho que muda a forma como olhamos para os outros.
Porque quando sentimos que já conhecemos alguém, deixamos de imaginar todas as partes que não vemos. A pessoa torna-se, inevitavelmente, um pouco mais plana: aquilo que publica, aquilo que defende, aquilo que veste, aquilo que compra, aquilo que decidiu mostrar.
Há qualquer coisa nas redes sociais que parece retirar camadas de complexidade às pessoas. Não porque alguém esteja deliberadamente a simplificar-se (e este seria todo um novo tema), mas porque nós próprios construímos uma pessoa completa a partir dos fragmentos a que temos acesso.
E talvez seja precisamente isso que acho tão interessante no ser humano: somos profundamente contraditórios. Podemos acreditar simultaneamente em coisas que parecem incompatíveis. Podemos mudar de opinião. Podemos ser uma coisa num contexto e outra noutro, sem que nenhuma delas seja falsa. Podemos mostrar imenso e revelar muito pouco.
Preciso de estar online para que o meu trabalho chegue às pessoas e, idealmente, para conseguir viver dele. Mas não gosto, nem sinto particular necessidade de ser vista.
Gosto, provavelmente, de ser compreendida.
E acho que são coisas bastante diferentes.
Gosto daqueles pequenos encontros que acontecem por aqui, com pessoas que entendem exatamente o que quero dizer. Não são necessariamente pessoas que concordam comigo - compreender e concordar são coisas diferentes -, mas pessoas que percebem o racional de alguma coisa que estou a afirmar, a perguntar ou a tentar perceber.
Talvez seja essa a parte da internet que ainda me interessa e não a imagem que tenho dela como um corredor interminável de ruído, repetição, publicidade, urgência e pessoas a tentar vender-nos alguma coisa num tom excessivamente entusiasmado.
Neste ambiente meio caótico, ser vista significa que as pessoas encontram o meu trabalho, os meus pensamentos. Ser compreendida significa que, eventualmente, algumas percebem o que estou a tentar fazer - e, com sorte, talvez até o apoiem e torçam por ele.
Quando penso no meu trabalho - seja a pintar, a fotografar ou a escrever -, acho que tenho partilhado bastante intimidade. Este ensaio é provavelmente prova disso. Mas continuo a conseguir fazê-lo sem tocar verdadeiramente na minha privacidade.
E talvez essa seja também uma das razões pelas quais continuo a fazer trabalho: não para explicar quem sou, mas porque há ideias, perguntas e formas de olhar para as coisas que quero tornar visíveis.
Sempre pensei que odiaria que alguém me reconhecesse enquanto vou tranquilamente a andar na rua.
Mas adoraria que alguém reconhecesse uma obra minha como sendo minha.
Talvez a diferença esteja toda aí.



Ser vista parece estar ligada à exposição; ser compreendida, à conexão
Converso sobre isso de vez enquanto com meu parceiro, pois tenho medo de ser vista e ficar a mercê do julgamento quando só quero ser compreendida
Prefiro ser compreendida a ser vista, mas também nunca gostei muito de ser vista. Sendo que querer ser compreendida por todos é impossível, e tento não me agarrar a isso. Por outro lado, uma das necessidades humanas é ser compreendido e acolhido, por isso acho que dessa vontade não nos livramos. Quanto à privacidade/ exposição na internet... por vezes sinto-me uma fraude, porque realmente o que mostro é apenas uma versão minha. Mas por outro lado sinto-me muito bem com isso, porque houve uma coisa que sempre se manteve no meu estilo de vida... quis sempre mostrar o que para mim não é privado. Admiro a privacidade com toda a minha alma, e adoro que só quem quero/gosto, conheça parte da minha privacidade.