Não me refiro à figura romântica que vai viver para uma gruta, no cimo de uma montanha - embora admita que, em determinados dias, a ideia seja tentadora (mas gosto demasiado do conforto da casa que construí com o marido que escolhi para ceder à tentação). Continuo a gostar de pessoas, de conversas demoradas, de jantares com amigos e até, na maioria dos dias, de trabalhar em equipa.
Mas, à medida que envelheço (ou talvez amadureça), reparo numa coisa curiosa: quanto mais tempo passo sozinha, menos dificuldade tenho em distinguir aquilo que realmente penso daquilo que apenas repeti durante anos. (Também ajuda o facto de a minha bateria social se parecer cada vez mais com a de um iPhone antigo.)
Há uma certa distância da sociedade que considero saudável. Não porque rejeite as pessoas, mas porque preciso, de vez em quando, de criar silêncio suficiente para perceber quantas das minhas convicções sobreviveriam se ninguém estivesse a olhar.
Somos neurobiologicamente programados para pertencer e talvez por isso seja tão difícil distinguir pertença de conformidade. Brené Brown faz uma distinção que acho particularmente interessante: fitting in exige que mudemos quem somos; belonging exige precisamente o contrário - que sejamos exactamente tudo aquilo que somos.
Kierkegaard tem uma frase célebre: “The crowd is untruth.” Explora precisamente a ideia de que o grupo oferece segurança, mas também limita a individualidade. Ser plenamente quem somos implica, inevitavelmente, afastarmo-nos, em alguns momentos, do consenso.
O sociólogo Charles Horton Cooley também defendia que a nossa identidade não é construída em isolamento, mas através da forma como imaginamos que os outros nos veem. Chamou-lhe the looking-glass self. Talvez por isso seja tão difícil saber onde termina a nossa vontade e começa a expectativa dos outros.
Já Nietzsche foi ainda mais longe. Para ele, criar os próprios valores implica abandonar muitos dos que herdámos. E esse processo tem um preço: o isolamento (temporário ou não) de quem deixa de reconhecer automaticamente as certezas do grupo.
Menciono estas referências porque a esta relação entre liberdade e solidão, pelo menos como eu a entendo, é política, claro, mas é sobretudo existencial - muitas das nossas escolhas provavelmente não são tão nossas quanto gostamos de acreditar. Viver coletivamente implica, por definição, sermos permeáveis aos outros. Sempre foi assim. Talvez a dificuldade esteja precisamente em perceber como viver em sociedade sem deixar de viver conscientemente dentro dela.
Obviamente, não olho para o coletivo como um bicho mau e manipulador (nem isto é alguma teoria da conspiração sobre as pessoas serem más), mas acho relevante lembrarmo-nos do peso que o grupo tem na nossa individualidade. Raramente questionamos aquilo que toda a gente considera inevitável. Perguntas como:
Quero casar? Ou é simplesmente o passo seguinte?
Quero ter filhos? Ou é o ciclo normal da vida?
Quero esta carreira? Ou realiza-me porque corresponde à definição social de sucesso que aprendi ao longo de anos?
Gosto mesmo disto ou aprendi que devia gostar?
Vivemos num mundo onde achamos perfeitamente normal escolher a religião dos nossos filhos antes de eles terem idade para escolher seja o que for, quase como se estivéssemos a escolher o clube de futebol. Eu acho bizarro. Metade dos meus amigos não acha e está tudo bem. Aliás, é precisamente esse o ponto: aquilo que para uns é uma escolha, para outros é apenas a continuação natural daquilo que sempre foi.
E o meu ponto é: quantas decisões tomamos assim? Não como escolhas, nem sequer como opiniões, mas simplesmente como a forma como as coisas são.
Acredito que a verdadeira liberdade vem, pelo menos em parte, de conseguirmos questionar se estas escolhas são nossas ou se foram geracionalmente e culturalmente herdadas. E quantas conseguimos realmente questionar quando vivemos em piloto automático?
Quanto mais os anos passam, mais percebo que talvez a liberdade não tenha tanto a ver com fazer o que queremos, mas com ter tempo (e muito privilégio) para conseguir descobrir o que realmente queremos antes que o mundo o escolha por nós.
E diria que é aí que a solidão, o isolamento (ou o que lhes quisermos chamar) entram. Questionar não nos afasta necessariamente da sociedade, mas afasta-nos da unanimidade - e, se para mim a unanimidade consegue ser desconfortável que dói, percebo que para muitos seja uma segurança difícil de abandonar.
Há um conforto e uma segurança enormes no consenso. Se toda a gente à nossa volta acredita na mesma coisa, toma as mesmas decisões e reconhece os mesmos marcos como desejáveis, raramente somos obrigados a explicar, sequer a nós mesmos, porque os queremos. É quando deixamos de concordar que aparece o desconforto. De repente, aquilo que antes era simplesmente “a vida” passa a ser uma escolha. E escolher conscientemente obriga-nos a aceitar a possibilidade de escolher diferente - ou escolher e errar.
E, claro, esta pequena reflexão acontece numa altura em que criámos tudo e mais alguma coisa para não precisarmos dos outros: Uber Eats, teletrabalho, streaming... Ao mesmo tempo, vivemos cada vez mais em silos. Um grupo declara que determinada coisa é X ou Y e, a partir daí, deixa quase de ser uma opinião para passar a funcionar como um veredito - e, muitas vezes, como uma declaração de identidade. Mas isso é todo um tema para outra reflexão.
Discordar já não significa apenas pensar de maneira diferente; pode significar deixar de pertencer.
Talvez seja por isso que continuo a precisar e a valorizar tanto o silêncio. Não para fugir dos outros, mas para conseguir perceber o que sobra quando o ruído desaparece.
Não acredito que seja possível viver em sociedade sem sermos influenciados por ela. Talvez nem seja esse o objetivo.
Talvez a liberdade nunca tenha sido sobre fazer o que queremos ou viver sem influência. Talvez o primeiro passo seja simplesmente conseguirmos perguntar: isto sou eu ou é apenas um reflexo do contexto em que aprendi a existir?
Nota final: estou a ler The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion, de Jonathan Haidt, pelo que é bem possível que ainda venha aí um take II ; veremos.



Estar só é estar em pleno. Zero ruído. E depois há a curiosidade, a liberdade de explorar. O grupo, serve apenas de conforto. Gostei da reflexão.